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O consumidor está mudando: como as novas ocasiões de consumo estão transformando o mercado de cervejas

04 de agosto, 2026|por Zenilson Magalhães
O consumidor está mudando: como as novas ocasiões de consumo estão transformando o mercado de cervejas

Durante muito tempo, falar sobre mercado cervejeiro era falar principalmente de volume.

Quantos litros foram produzidos? Qual marca vendeu mais? Qual cerveja ganhou espaço na gôndola?

Essas perguntas continuam importantes. Mas existe outra mudança acontecendo, talvez menos evidente, que merece atenção. O consumidor está começando a escolher a cerveja de acordo com a ocasião.

E isso está fazendo a indústria repensar o que colocar dentro da lata.

A cerveja para cada momento

Imagine uma pessoa que gosta de cerveja.

Na sexta-feira à noite, ela pode querer uma Pilsen bem gelada para acompanhar uma pizza. No sábado, talvez escolha uma IPA para experimentar algo diferente. No domingo, pode preferir uma cerveja sem álcool porque vai dirigir.

E em outro momento, talvez simplesmente não queira consumir álcool. A pessoa continua sendo a mesma. O que mudou foi a ocasião.

É justamente aí que está uma das transformações mais interessantes do mercado cervejeiro.

O crescimento das cervejas sem álcool

Um dos exemplos mais claros dessa mudança está nas cervejas sem álcool.

Segundo levantamento da Neogrid divulgado em junho de 2026, a categoria passou de 2,5% para 3,9% do volume total de cervejas consumidas no Brasil entre 2024 e 2026. No mesmo período, a presença das cervejas sem álcool nos carrinhos de compras aumentou de 4,4% para 5,6%, enquanto o tíquete médio da categoria cresceu mais de 20%.  

São números que ajudam a colocar em perspectiva algo que já começa a aparecer com frequência nas prateleiras. A cerveja sem álcool deixou de ser apenas uma alternativa para quem não pode beber. Ela passou a ocupar novas situações de consumo.

A própria Heineken, ao apresentar a Heineken 0.0, fala em situações como academia, compromissos profissionais e momentos em que a pessoa simplesmente não quer consumir álcool.  

Isso é importante.

A categoria não está necessariamente tentando convencer o consumidor a abandonar a cerveja tradicional.

Está tentando fazer parte de momentos em que a cerveja tradicional não seria uma opção.

A indústria percebeu essa mudança

Talvez um dos exemplos mais recentes seja a Spaten Pro, lançamento da Ambev que combina uma cerveja sem álcool com 10 gramas de proteína por lata de 350 ml.

A proposta é ainda mais curiosa porque coloca a cerveja em contato com um universo que tradicionalmente estava distante dela: o de produtos proteicos, bem-estar e performance.   E não é necessário gostar ou não gostar da ideia para perceber o movimento estratégico.

A indústria está olhando para ocasiões que antes não eram necessariamente consideradas cervejeiras.

É uma mudança importante.

Não é só sobre saúde

Seria fácil resumir tudo isso à palavra “saudabilidade”.

Mas acredito que a história seja um pouco maior. Existem consumidores preocupados com saúde e equilíbrio, claro.

Mas também existem pessoas que querem dirigir, trabalhar, praticar exercícios, acordar cedo, reduzir o consumo de álcool ou simplesmente alternar uma cerveja tradicional com uma opção sem álcool.

A própria categoria está ficando mais flexível.

E isso abre espaço para novos produtos.

Ao mesmo tempo, a cerveja premium continua avançando

Existe uma aparente contradição interessante.

Enquanto uma parte da indústria investe em produtos mais leves, sem álcool ou com propostas funcionais, outra trabalha justamente para aumentar o valor agregado da cerveja.

O consumidor pode querer uma bebida sem álcool em uma ocasião e uma cerveja premium em outra. Não necessariamente existe conflito entre as duas coisas. Talvez o que esteja acontecendo seja justamente uma fragmentação maior das ocasiões de consumo.

E isso muda bastante a maneira como as empresas precisam pensar seus portfólios.

O que isso significa para o varejo?

Aqui existe uma questão particularmente interessante.

Se o consumidor passa a escolher a cerveja de acordo com a ocasião, talvez organizar a categoria apenas por marca ou preço já não seja suficiente. Uma pessoa que procura uma cerveja sem álcool está resolvendo uma necessidade diferente de quem procura uma IPA. Quem quer uma cerveja premium para um jantar está em outra situação.

Quem procura uma opção econômica para um churrasco também. O desafio passa a ser entender quem está comprando, para qual momento e por qual motivo.

Isso pode influenciar desde a composição do mix até a exposição dos produtos e a comunicação dentro da loja.

O mercado está ficando maior ou apenas mais dividido?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes.

O crescimento das cervejas sem álcool não significa necessariamente que o consumidor tradicional esteja desaparecendo.

Os dados da Kantar mostram justamente um cenário mais complexo: em 2024, o Brasil perdeu cerca de 1,1 milhão de consumidores de cerveja fora do lar, mas, ao mesmo tempo, o número de ocasiões de consumo nesse ambiente cresceu 20%, ultrapassando 41,4 milhões.  

Ou seja, quantidade de consumidores e quantidade de ocasiões não caminham necessariamente juntas. Isso ajuda a explicar por que a indústria está tão interessada em criar novas situações para a cerveja.

Talvez a disputa não seja apenas por quem bebe mais.

Seja por quando a pessoa escolhe beber.

E onde isso pode chegar?

É difícil prever.

Mas olhando para os movimentos recentes, parece razoável imaginar que teremos cada vez mais produtos destinados a ocasiões específicas.

  • Cervejas sem álcool.
  • Produtos com menos calorias.
  • Cervejas premium.
  • Novas combinações de ingredientes.
  • Bebidas com propostas funcionais.

E, provavelmente, novidades que hoje ainda parecem estranhas. A Spaten Pro é um exemplo bastante claro disso. Pode funcionar muito bem ou encontrar resistência.

O consumidor pode abraçar a proposta ou simplesmente não enxergar sentido nela.

Isso faz parte da inovação.

No fim, talvez a grande mudança seja outra

A indústria cervejeira sempre criou produtos.

Agora, parece estar tentando criar também novos momentos para esses produtos serem consumidos. E talvez essa seja a transformação mais importante. O consumidor não deixou necessariamente de gostar de cerveja. Ele apenas passou a ter mais possibilidades de escolher qual cerveja, quando e por quê.

Para o mercado, isso significa uma categoria cada vez mais segmentada. Para o varejo, significa entender melhor as ocasiões de consumo. E para quem gosta de cerveja, significa algo bastante simples: mais opções para escolher.

No fim, talvez a pergunta não seja mais apenas “qual cerveja você gosta?”.

Mas, “Que cerveja combina com o momento que você está vivendo?”