
A cerveja continua sendo uma das bebidas mais consumidas do mundo. Mas os números mais recentes mostram que a indústria cervejeira global está passando por uma mudança importante.
Segundo o BarthHaas Report 2025/2026, a produção mundial de cerveja caiu 0,7% em 2025, chegando a aproximadamente 1,896 bilhão de hectolitros. Em volume, foram cerca de 14,3 milhões de hectolitros a menos do que no ano anterior. À primeira vista, pode parecer uma queda pequena.
E realmente é. Mas quando estamos falando de quase 1,9 bilhão de hectolitros, 0,7% representa um volume considerável.
Mais importante do que o número, porém, é entender onde essa queda aconteceu e o que ela está dizendo sobre o consumidor de cerveja.
Não foi uma queda igual no mundo inteiro
Um dos pontos mais interessantes do levantamento é justamente esse.
A produção não caiu da mesma maneira em todos os mercados. Europa, Ásia, Américas e Oceania registraram retração. A exceção foi a África, que apresentou crescimento de 2,6% e chegou a aproximadamente 166,7 milhões de hectolitros. Ou seja, quando olhamos para o mercado mundial, estamos falando de realidades bastante diferentes.
Existem países em que o consumo está perdendo força e outros em que a cerveja ainda encontra espaço para crescer.
Isso ajuda a explicar por que as grandes cervejarias estão cada vez mais interessadas em mercados emergentes.
Os Estados Unidos tiveram uma queda significativa
Entre os grandes produtores, os Estados Unidos chamam atenção.
A produção norte-americana caiu 5,2% em 2025, chegando a cerca de 174,9 milhões de hectolitros. A queda americana teve peso importante no resultado da América do Norte. O México, por outro lado, seguiu na direção contrária. A produção mexicana cresceu 2%, chegando a aproximadamente 147,9 milhões de hectolitros.
É um bom exemplo de como dois mercados geograficamente próximos podem apresentar comportamentos completamente diferentes.
E a China continua na liderança
A China permaneceu como o maior produtor mundial de cerveja.
Foram aproximadamente 353,6 milhões de hectolitros em 2025, equivalentes a cerca de 18,7% da produção mundial. Mas também houve uma pequena retração, de aproximadamente 2,3 milhões de hectolitros em relação ao ano anterior. Estados Unidos e China continuam entre os maiores mercados do planeta, mas ambos enfrentaram redução de produção.
E é justamente aí que começa uma questão importante.
Será que estamos diante de um problema de produção ou de uma mudança na demanda?
O Brasil aparece na direção contrária
Se existe um país que merece destaque nessa história, é o Brasil.
Enquanto a produção mundial caiu 0,7%, a produção brasileira cresceu 2,5% em 2025, chegando a aproximadamente 151,1 milhões de hectolitros. Com esse resultado, o Brasil permaneceu como o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos. Isso coloca o mercado brasileiro em uma posição bastante interessante. Enquanto alguns mercados tradicionais enfrentam retração, o Brasil continua ampliando sua produção. E não estamos falando de um crescimento pequeno.
Foram aproximadamente 3,7 milhões de hectolitros adicionais em relação a 2024.
Mas produção não é a mesma coisa que consumo
Esse ponto merece atenção.
Produzir mais cerveja não significa necessariamente que o consumidor brasileiro esteja bebendo proporcionalmente mais. Produção, vendas, consumo, exportação, estoques e outros fatores fazem parte de uma equação muito maior. Por isso, seria precipitado olhar para o crescimento brasileiro e concluir simplesmente que “o brasileiro está bebendo mais”.
O que podemos afirmar é que a indústria brasileira produziu mais em 2025 e que o país manteve sua posição entre os maiores produtores mundiais.
E isso já é bastante relevante.
Existe outra mudança acontecendo
Enquanto a produção mundial recua, o comportamento do consumidor também está mudando.
O próprio BarthHaas aponta que, especialmente nos mercados tradicionais, o consumo está estagnado ou em queda, enquanto bebidas de baixo teor alcoólico e sem álcool ganham importância. Essa informação conversa diretamente com uma tendência que já observamos em outros momentos aqui no Eu Curto Cerveja. O consumidor não necessariamente está abandonando a categoria. Ele está encontrando novas maneiras de consumi-la. Uma cerveja sem álcool pode ocupar uma ocasião que antes não existia. Uma cerveja premium pode fazer parte de uma experiência diferente. Uma cerveja artesanal pode ser escolhida pela curiosidade.
E a cerveja tradicional continua presente em ocasiões mais conhecidas.
A categoria vai ficando mais diversa.
E existe um detalhe curioso envolvendo o lúpulo
O relatório do BarthHaas também mostra que a queda na produção de cerveja teve impacto direto sobre o mercado de lúpulo.
A demanda mundial por lúpulo caiu quase 3%, chegando a aproximadamente 10.700 toneladas de alfa-ácidos. Mas a oferta continuou acima da demanda. O resultado foi um excedente de aproximadamente 1.200 toneladas de alfa-ácidos, equivalente a uma capacidade estrutural de produção excedente de cerca de 5.100 hectares. Isso mostra como uma mudança aparentemente simples na produção de cerveja pode chegar até o campo.
- Menos cerveja produzida.
- Menor demanda por lúpulo.
- Pressão sobre produtores.
- Redução de área cultivada.
E, consequentemente, impacto em toda uma cadeia produtiva.
O mercado está em crise?
Eu teria cuidado com essa conclusão.
Uma queda de 0,7% na produção mundial não é suficiente, sozinha, para dizer que a indústria cervejeira está em crise. O que os dados mostram é algo mais interessante:
o mercado está mudando.
Mercados tradicionais estão perdendo volume. Mercados emergentes continuam crescendo. O consumidor está mudando seus hábitos. As cervejas sem álcool e de baixo teor alcoólico ganham importância. E as empresas precisam encontrar novas formas de gerar valor mesmo quando o crescimento de volume fica mais difícil.
É uma transformação estrutural.
E não necessariamente uma crise.
O que isso significa para o futuro?
Talvez o grande desafio das cervejarias não seja simplesmente produzir mais.
É produzir aquilo que o consumidor realmente quer. Em alguns mercados, isso pode significar uma cerveja premium. Em outros, uma opção mais acessível. Em outros, uma cerveja sem álcool. E em mercados como o brasileiro, talvez exista espaço para diferentes movimentos acontecendo ao mesmo tempo. O mercado global não está caminhando todo na mesma direção. E talvez essa seja justamente a principal conclusão do relatório.
O futuro da cerveja não será definido por um único mercado, um único estilo ou uma única tendência.
Será definido por diferentes consumidores, em diferentes países, tomando decisões diferentes.
E o Brasil nessa história?
O Brasil aparece como um dos pontos positivos do cenário global.
Somos o terceiro maior produtor mundial e crescemos enquanto a produção global recuou. Isso coloca o país em uma posição importante para a indústria cervejeira internacional. Mas também traz desafios. Manter crescimento em um mercado cada vez mais competitivo exige entender o consumidor, controlar custos, inovar e encontrar novas ocasiões de consumo. Produzir mais é importante.
Mas entender o que produzir, para quem e por quê pode ser ainda mais.
No fim, os 0,7% de queda na produção mundial contam apenas uma parte da história. A outra parte está nas mudanças de comportamento que estão acontecendo dentro de cada mercado. E talvez seja justamente aí que esteja o futuro da cerveja.
🍺 Menos volume em algumas regiões. Mais crescimento em outras. Novos produtos. Novas ocasiões. Um consumidor cada vez mais diversificado.
O mercado mundial de cerveja não está simplesmente diminuindo.
Ele está mudando de forma.



