A cerveja está perdendo consumidores ou está mudando de lugar na nossa vida?

Sexta-feira chegou.
E existe algo quase automático nessa combinação. O fim de semana começando, amigos se encontrando, uma mesa ocupada e, em algum momento, alguém pergunta: “Vamos tomar uma cerveja?”
Só que existe uma mudança acontecendo nessa relação que talvez passe despercebida. A cerveja continua muito presente na vida do brasileiro, mas o jeito de consumi-la está mudando.
E os números recentes deixam essa história bem mais interessante do que parece.
Menos consumidores, mais ocasiões
Um levantamento da Kantar, divulgado no estudo Brand Footprint Brasil 2025, mostrou um dado curioso.
Entre agosto e dezembro de 2024, o Brasil tinha 1,1 milhão de consumidores de cerveja fora de casa a menos em comparação com o mesmo período do ano anterior. Até aí, parece uma notícia ruim para o setor. Mas, no mesmo período, o número de ocasiões de consumo fora do lar cresceu 20%, ultrapassando 41,4 milhões. Ou seja, havia menos pessoas consumindo, mas quem consumia estava aparecendo mais vezes.
É uma diferença importante.
Porque volume de consumidores e frequência de consumo não são exatamente a mesma coisa.
E talvez essa seja a parte mais importante da história
Durante muito tempo, a cerveja foi associada a algumas ocasiões bastante conhecidas.
Sexta-feira. Churrasco. Futebol. Praia. Happy hour. Festa. Hoje, a indústria parece estar tentando ampliar essa lista. E não necessariamente criando mais motivos para beber álcool.
Em muitos casos, está fazendo justamente o contrário.
A cerveja sem álcool mudou de papel
Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, a produção brasileira de cervejas sem álcool ou desalcoolizadas passou de aproximadamente 119 milhões de litros em 2023 para mais de 757 milhões em 2024.
Um salto de 536,9% em apenas um ano.
Com isso, a categoria passou a representar 4,9% da produção nacional. É um crescimento difícil de ignorar. E os dados mais recentes indicam que o movimento continuou. Levantamento da Neogrid mostra que a participação das cervejas sem álcool no volume total consumido no Brasil passou de 2,5% em 2024 para 3,9% em 2026. A presença da categoria nos carrinhos de compra também aumentou, de 4,4% para 5,6%. E o tíquete médio cresceu mais de 20%. Isso começa a mostrar que a cerveja sem álcool deixou de ser apenas uma alternativa para quem não pode beber.
Ela passou a ser uma opção para quem não quer beber naquele momento.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Sexta-feira também pode ter cerveja sem álcool
Talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes.
Imagine a nossa sexta-feira. Uma pessoa pode tomar uma cerveja tradicional depois do trabalho. Outra pode escolher uma sem álcool porque vai dirigir. Uma terceira pode alternar as duas. E outra talvez nem queira consumir álcool, mas ainda assim queira participar daquele ritual de sentar à mesa, conversar e brindar.
A cerveja continua presente.
A ocasião é que mudou.
O consumidor também está ficando mais seletivo
Não é apenas a questão do álcool.
Nos últimos anos, surgiram cada vez mais produtos com propostas diferentes. Cervejas premium. Sem álcool. Menos calorias. Sem glúten. E até produtos que tentam aproximar a cerveja do universo das proteínas e do bem-estar. A indústria está percebendo que não existe mais um único consumidor de cerveja.
Existem pessoas diferentes, com momentos diferentes.
E isso muda completamente a maneira de pensar um portfólio.
O curioso é que o mercado artesanal também continua atraindo atenção
O Brasil chegou a 1.949 cervejarias registradas em 2024, segundo o Anuário da Cerveja do Mapa.
São quase duas mil cervejarias produzindo em um mercado que, ao mesmo tempo, vê crescer a procura por produtos sem álcool e outras propostas mais leves. Parece contraditório. Mas talvez não seja. A pessoa pode beber uma Pilsen tradicional no churrasco, experimentar uma IPA artesanal em uma viagem e escolher uma cerveja sem álcool durante a semana.
O consumidor não precisa escolher um único lado.
Ele pode escolher de acordo com o momento.
Então estamos bebendo menos?
Talvez a resposta mais honesta seja: depende de como medimos.
Se olharmos apenas para alguns indicadores de volume, existem sinais de desaceleração.
Uma reportagem da Folha de S.Paulo, citando dados da Euromonitor, apontou queda de 5% nas vendas de cerveja no Brasil em 2025 em relação ao ano anterior. A mesma reportagem cita o Anuário da Cerveja 2026, segundo o qual a produção nacional caiu 9% em 2025, para 15,7 bilhões de litros. Mas isso não significa necessariamente que a cerveja esteja deixando de fazer parte da vida das pessoas.
Talvez esteja acontecendo uma mudança mais profunda.
O consumidor está escolhendo melhor quando, onde, quanto e qual cerveja consumir.
E isso muda o jogo para o varejo
Aqui a discussão fica ainda mais interessante.
Se o consumidor está mais seletivo, não basta simplesmente colocar mais produtos na gôndola. É preciso entender o motivo daquela compra. Uma pessoa que procura uma cerveja sem álcool está em uma ocasião diferente daquela que procura uma IPA artesanal. Quem busca uma cerveja premium para um jantar está fazendo uma compra diferente de quem procura uma caixa para o churrasco do fim de semana.
E isso significa que o varejo precisa começar a olhar cada vez mais para ocasiões de consumo, e não somente para marcas e preços.
É uma mudança de perspectiva.
Talvez o maior desafio da indústria seja justamente esse
A cerveja não precisa necessariamente convencer alguém a beber mais.
Ela precisa continuar encontrando espaço na vida do consumidor. Às vezes com álcool. Às vezes sem. Às vezes uma cerveja tradicional. Às vezes uma novidade que, alguns anos atrás, provavelmente nem faria sentido dentro da categoria. É uma mudança que pode incomodar quem gosta de definir muito bem o que é ou não é cerveja.
Mas o mercado não costuma esperar nossa aprovação para mudar.
Ele simplesmente muda.
E hoje é sexta-feira
Talvez por isso esse assunto faça ainda mais sentido hoje.
Enquanto escrevo este texto, provavelmente tem muita gente pensando em onde vai tomar a primeira cerveja do fim de semana. Alguns vão escolher a mesma de sempre. Outros vão experimentar uma novidade. Alguns vão optar por uma sem álcool. E outros simplesmente vão preferir um refrigerante, água ou qualquer outra bebida. Tudo isso faz parte do mesmo movimento.
A cerveja não desapareceu. O consumidor apenas ganhou mais escolhas. E talvez a grande transformação do mercado não seja fazer as pessoas beberem mais. Seja conseguir fazer com que a cerveja continue fazendo sentido para mais momentos da vida delas. No fim, talvez a pergunta mais interessante para o mercado não seja: “Quanto de cerveja o brasileiro está bebendo?”
Mas sim: “Em quais momentos o brasileiro ainda quer uma cerveja?”
E essa resposta pode dizer muito mais sobre o futuro da categoria.
🍺 Bom fim de semana. E, qualquer que seja a sua escolha, que seja uma boa sexta-feira.

