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O mercado de cerveja está vendendo menos ou está vendendo melhor?

27 de agosto, 2026|por Zenilson Magalhães
O mercado de cerveja está vendendo menos ou está vendendo melhor?

Existe uma pergunta que parece simples, mas que fica bem mais complicada quando olhamos os números.

O brasileiro está consumindo menos cerveja ou simplesmente está escolhendo de outra maneira onde e quanto gastar?

Os dados mais recentes mostram um mercado cheio de sinais aparentemente contraditórios. Nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o consumo de cerveja movimentou R$ 13 bilhões no foodservice brasileiro, crescimento de 17% em relação ao período anterior. Até aí, parece uma excelente notícia.

Mas houve um detalhe. Nesse mesmo período foram registradas 369,2 milhões de transações, uma queda de 3% na comparação anual. Mais dinheiro. Menos compras.

E é justamente aí que começa a ficar interessante.

O que está acontecendo?

Quando olhamos apenas para o faturamento, podemos concluir que o mercado está crescendo.

Quando olhamos apenas para o número de transações, a impressão é exatamente a contrária.

A verdade provavelmente está no meio dessas duas informações. O consumidor continua comprando cerveja, mas pode estar gastando mais em determinadas ocasiões, escolhendo produtos de maior valor ou simplesmente pagando mais caro por aquilo que já comprava. Isso muda bastante a interpretação dos números.

E também muda a conversa para quem trabalha com cerveja e varejo.

O consumidor está pagando mais por cerveja?

Uma das possíveis explicações está na chamada premiumização.

Não significa necessariamente que todo mundo passou a consumir cervejas mais caras. Significa que existe uma parcela do mercado disposta a pagar mais quando percebe algum valor adicional no produto. Pode ser uma marca conhecida. Um estilo diferente. Uma experiência. Uma ocasião especial. Uma cerveja sem álcool. Ou simplesmente um produto que o consumidor considera melhor.

Os movimentos das grandes cervejarias mostram que essa estratégia continua sendo importante. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, a Ambev registrou crescimento de aproximadamente 20% no segmento premium, com destaque para marcas como Stella Artois, Corona e Original. No mesmo período, o volume total de cerveja comercializado pela companhia no Brasil cresceu 1,2%.  

Isso não significa que o consumidor brasileiro tenha abandonado as cervejas tradicionais.

Significa que existe espaço para produtos diferentes dentro da mesma categoria.

E existe outro movimento acontecendo ao mesmo tempo

Enquanto uma parte do mercado busca produtos premium, outra transformação ganhou bastante força, a cerveja sem álcool.

Segundo levantamento da Neogrid, a participação da categoria no volume total de cervejas consumidas no Brasil passou de 2,5% em 2024 para 3,9% em 2026. A presença desses produtos nos carrinhos de compra também aumentou, de 4,4% para 5,6%. E o tíquete médio cresceu mais de 20%, passando de R$ 26,41 para R$ 31,94 no período analisado. É um dado particularmente interessante.

Porque mostra que uma categoria que ainda era considerada de nicho está conquistando espaço sem necessariamente competir apenas por preço. O consumidor está comprando.

E, em alguns casos, está gastando mais.

Menos volume não significa necessariamente menos valor

Essa pode ser a principal questão dessa história.

Imagine duas situações. Na primeira, uma pessoa compra quatro cervejas de determinado produto por R$ 8 cada. Na segunda, compra duas cervejas de R$ 12. O volume caiu pela metade. Mas o faturamento não caiu na mesma proporção. É uma simplificação, evidentemente, mas ajuda a entender por que olhar apenas para litros vendidos pode não contar toda a história. O mercado pode estar passando por uma mudança na composição do consumo.

E isso é muito diferente de simplesmente dizer que “o brasileiro está bebendo menos”.

Mas também existe pressão sobre o consumo

Seria errado transformar esses dados em uma história de crescimento generalizado.

O mercado cervejeiro brasileiro também enfrenta sinais de retração. A Neogrid aponta que o volume total consumido caiu 10,4% entre 2024 e 2025. O levantamento também relaciona esse movimento a mudanças nos hábitos de consumo e ao aumento da parcela de adultos que declararam não consumir bebidas alcoólicas.  

Ao mesmo tempo, a produção brasileira de cerveja chegou a 15,34 bilhões de litros em 2024, e o número de cervejarias registradas alcançou 1.949 estabelecimentos. São números que mostram um mercado enorme e diversificado, mas que também está passando por mudanças importantes.

Não existe uma única história acontecendo. Existem várias.

O que isso significa para o varejo?

Aqui que está a parte mais interessante.

Durante muito tempo, a discussão sobre cerveja no varejo esteve muito ligada a preço, volume e participação de mercado. Esses indicadores continuam fundamentais. Mas talvez seja cada vez mais necessário entender o motivo da compra.

  • Quem está comprando?
  • Para qual ocasião?
  • Qual produto está procurando?
  • Quanto está disposto a pagar?
  • E o que faz esse consumidor trocar uma marca por outra?

Uma cerveja sem álcool, por exemplo, não necessariamente concorre pelo mesmo motivo de compra de uma lager tradicional. Uma cerveja premium também pode ocupar uma ocasião completamente diferente. Se o consumidor está diversificando suas escolhas, o varejo precisa acompanhar essa diversificação.

Isso significa rever mix, exposição, estoque e até a maneira como a categoria é apresentada ao consumidor.

A cerveja está ficando mais cara ou mais interessante?

Acredito que ainda seja cedo para responder.

Provavelmente existem os dois movimentos acontecendo. O consumidor está mais atento ao preço, mas também parece disposto a pagar mais quando enxerga valor. E esse valor não precisa estar necessariamente relacionado ao álcool. Pode estar na marca, na qualidade percebida, na experiência, na conveniência, na ocasião ou simplesmente na vontade de experimentar alguma coisa diferente.

Isso ajuda a explicar por que produtos premium e categorias como a cerveja sem álcool conseguem crescer mesmo em um ambiente em que o volume geral enfrenta pressão.

No fim, o mercado pode estar mudando de pergunta

Durante muito tempo, a pergunta principal era:

“Quanto o brasileiro bebe?”

Talvez ela continue sendo importante. Mas existe outra que começa a ganhar espaço:

“O que o brasileiro está disposto a pagar quando decide beber cerveja?”

Essa mudança parece pequena, mas não é. Ela desloca a discussão de quantidade para valor. De volume para ocasião. De preço para percepção de valor.

E coloca indústria e varejo diante de um desafio interessante, entender não apenas quanto o consumidor compra, mas por que ele escolheu aquele produto naquele momento. Talvez o mercado de cerveja não esteja simplesmente vendendo menos. Talvez esteja aprendendo a vender de outra maneira.

E essa diferença pode ser decisiva para os próximos anos.